sábado, 14 de junho de 2014

Quem compara o Brasil com os EUA ou Europa não tem noção do que está fazendo


Com que frequência você ouve falar que algo no Brasil é péssimo, mas nos EUA, França, Alemanha, Suíça ou na Dinamarca é muito melhor?

Isso é algo que escuto com grande frequência. É um costume de muitos brasileiros achar que o Brasil é o pior país do mundo e que lá fora tudo são flores. Nada do que o Brasil faz é bom e tudo o que os outros fazem serve de exemplo. Nem mesmo qualquer avanço que conseguimos é comemorado por essas pessoas.

Quem vive comparando o Brasil com os países mais desenvolvidos no mundo, como forma de tentar comprovar nossa inferioridade, não tem noção do que está fazendo e parece desconhecer por completo a história do Brasil.


Um pouco de história

Terminei de ler recentemente o livro "As veias abertas da América Latina" de Eduardo Galeano, que abriu a minha mente para uma série de questões sobre as quais eu pouco refletia nos últimos anos.

A maioria dos países da América Latina, nos seus cinco séculos de existência, passou mais de três séculos servindo unicamente como colônia de exploração de países europeus como a Espanha, Portugal, Inglaterra e outros.

Enquanto as riquezas naturais da América Latina eram sugadas de forma absurda, quase nada dessa riqueza se convertia em benefícios para os que moravam nos países explorados. Os poucos investimentos que eram feitos eram sempre voltados unicamente para facilitar essa exploração de recursos e enviar a riqueza extraída para o exterior.

Enquanto os países latinos sofriam com essa exploração, os países europeus enriqueciam bastante. Cresciam economicamente, construíam estradas, pontes, palácios, escolas, universidades e se fortaleciam militarmente para manter seus domínios e conquistar outros.

Eles se tornavam mais ricos, mais poderosos, mais cultos e mais desenvolvidos, enquanto nós não saíamos do mesmo patamar de pobreza e miséria constante.

Com muita luta, os países latino-americanos, entre os séculos XVIII e XIX, conseguiram se libertar e deixaram de ser colônias de países europeus, pelo menos oficialmente.

Deixaram de ser colônias no papel, mas passaram cada vez mais a se tornarem dependentes economicamente da Inglaterra, que na época era a grande potência dominante.

A Inglaterra fez de tudo para manter os países latinos totalmente dependentes de importações inglesas e quando alguns governantes tentavam mudar isso, logo um golpe de Estado acontecia e as coisas voltavam a ficar favoráveis à Inglaterra. 

Não se admitia qualquer tipo de concorrência com os produtos ingleses e se fazia de tudo para impedir que as economias locais dos países dominados se desenvolvessem a ponto de conseguirem concorrer de maneira igualitária na venda de algum produto.

No século XX, já depois da segunda guerra mundial, a potência dominante não era mais a Inglaterra e sim os Estados Unidos, que fazia com os países da América Latina algo muito parecido com o que antes era feito pela Inglaterra.

Quando os países da América Latina tentaram buscar um caminho próprio para o desenvolvimento, sem se submeterem aos desmandos de alguma potência imperialista, os EUA os empurrou goela abaixo ditaduras militares sangrentas e muito longas, para que andassem na linha, paralisando assim qualquer possibilidade de avanço social nesses países.

Hoje estamos em 2014, poucas décadas após a ditadura militar no Brasil, tentando nos desenvolver aos trancos e barrancos.

Passamos peles governos de Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma.


O quanto avançamos nesse período? 

O coeficiente de GINI é uma medição que indica o tamanho da desigualdade econômica de um país, ou seja, o quão distantes estão os mais ricos dos mais pobres. Esse coeficiente varia de 1 a 0 (quanto maior o valor, mais desigual é o país). 

No Brasil, esse índice era de 0,53 em 1960. Durante o período do governo militar (1964-1985) a diferença de riqueza entre os mais ricos e os mais pobres aumentou muito, chegando ao índice de 0,596 em 1985. Aumentou ainda mais durante o governo Sarney, alcançando o índice de 0,63 no fim de 1989, o máximo já registrado.

No início do governo FHC, em 1995, o índice havia caído para algo próximo de 0,598 e ao final dos 8 anos de governo FHC, o índice caiu para 0,581.

Já o governo Lula, em seus 8 anos, reduziu o mesmo para 0,527, um patamar abaixo daquele valor de 1960, um recorde histórico. Em 2012, na última medição feita no Brasil, o índice permaneceu praticamente o mesmo.

A variação do coeficiente de GINI ao longo dos anos. Fonte: PNAD

Renda, de volta a 1964 (20/02/2014)

A desigualdade de renda parou de cair? (16/10/2013)

Segundo o economista André Singer, em seu livro "Os sentidos do Lulismo", o nível de desigualdade no qual o Brasil se encontrava em 2002 era o mesmo que a Inglaterra possuía 100 anos antes. Isso demonstra o imenso atraso em que o Brasil se encontra em relação aos países desenvolvidos. Algum presidente poderia até melhorar essa situação, mas não dá para fazer milagres em pouco tempo.

Nosso nível de atraso é tão grande, que o governo federal já fez a estimativa de que seriam necessários mais de R$ 500 bilhões apenas para levar o saneamento básico a todos os brasileiros. 

Portal Brasil - Governo federal aprova Plano Nacional de Saneamento Básico (06/12/2013)


A injustiça nas comparações

Comparar o Brasil com os EUA ou com países da Europa, que não passaram nem de longe pelo que o Brasil passou, é algo completamente injusto e não faz sentido. 

Se há alguma comparação justa a fazer é com os outros países da América Latina, que também sofreram o pão que o diabo amassou nas mãos das potências econômicas da Europa e dos Estados Unidos.

Acho um absurdo comparar o Brasil, que teve suas primeiras universidades criadas no início do século XX, com países que possuem universidades há séculos, como a Itália, que teve a universidade de Bolonha criada em 1088, ou Portugal que teve sua primeira universidade criada em 1290 (Coimbra). Mesmo assim querem que tenhamos o mesmo nível de desenvolvimento intelectual, cultural, científico e tecnológico que a Europa.

Quem faz esse tipo de comparação é como se fosse um morador de favela, que nasceu em meio à violência, tendo que trabalhar desde cedo, quase sem oportunidades e sem dignidade, que começou a melhorar de vida há poucos anos, mas olha para alguém rico e se sente mal, porque não tem a vida que ele tem e ainda acha que não é rico porque não se esforçou o suficiente. Ele não tem noção de que aqueles ricos em muitos casos já tiveram tudo de mão beijada desde que nasceram e não precisaram se esforçar metade do que ele se esforçou desde criança para chegar onde chegou.

O que quero dizer é que é preciso parar de apenas xingar o Brasil e falar sobre ele como se fosse o pior país do mundo, como se nada aqui prestasse, como se nada tivesse melhorado e nenhum avanço tivesse sido conquistado. 

A insatisfação é um importante sentimento para gerar as mudanças que o país precisa, mas a insatisfação sem informação fundamentada, apenas com a ignorância, faz com que apoiemos qualquer um que queira mudar o que existe hoje na política ou na economia, mesmo que não saibamos o que exatamente deve ser mudado. 

Afinal, se não estivermos bem informados, como vamos saber diferenciar quem quer algo de bom para o país de quem é oportunista?

Precisamos buscar informação nas mais diferentes fontes, para não sermos manipulados facilmente e pensarmos por nós mesmos, ou estaremos eternamente exigindo mudança, sem saber para onde devemos ir.

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